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Ana Carolina de Souza e Silva
Sara Helena Dadam

Resumo: O presente artigo de revisão relata como é o trabalho da doula no Brasil, uma acompanhante do parto treinada para oferecer suporte físico e emocional através do apoio contínuo durante o trabalho de parto e parto, e, do trabalho da orientação perinatal, que objetiva orientar, informar e preparar a mulher para o processo de maternagem, parto e pós-parto, e que possibilite escolhas conscientes ao casal grávido. A orientação perinatal trabalha com a prevenção do comprometimento emocional que pode limitar o desenvolvimento do bebê, pois situações causadas por stress físico, químico, mecânico ou psicológico pode comprometer o desenvolvimento das células do embrião, justificando a atuação da orientação perinatal na gestação e a presença da doula no processo de maternagem.

Palavras-chave: Doula, educação perinatal, gravidez, parto, psicologia corporal.

Segundo os ensinamentos de Wilhelm Reich (1995), cujo estudo enfocou trabalho sistemático orientado para o corpo, é desde o momento da concepção que se inicia a história energética e emocional de uma pessoa. (Volpi & Volpi, 2002). Neste sentido o trabalho da orientação perinatal durante a gestação e a presença de uma Doula é fundamental para que a história de um ser humano inicie com saúde e qualidade desde a sua concepção, nascimento e primeiros dias após o parto.  O médico está ocupado com os aspectos técnicos do parto, em fazer o bebê nascer bem, os auxiliares e as enfermeiras auxiliam o médico para que o parto transcorra de uma maneira segura, e, o pediatra, cuida do bebê após o seu nascimento. Apesar de todos os cuidados, e de todos esses profissionais envolvidos no momento do parto, quem zela pela mãe, dando-lhe suporte físico, afetivo e emocional, e quem a está orientando quanto a evolução do processo do nascimento, tão diferente em cada mulher?

A doula é a profissional do parto treinada com procedimentos de assistência á parturiente, oferecendo apoio e suporte físico, emocional e afetivo antes, durante e após o parto. A palavra doula vem do grego e significa a mulher que serve, referindo-se as acompanhantes que cercavam e cuidavam da mulher no seu ciclo de gravidez, isto é, na preparação para o parto e pós-parto.  Antigamente, as parturientes, tinham seus filhos em casa, com parteiras, em um ambiente conhecido e acolhedor, eram acompanhadas durante toda a gestação por pessoas mais experientes, a mãe, amiga, vizinha, todavia, com a mudança do parto domiciliar para o hospital, o ambiente tornou-se mais frio, e com a soma das intervenções médicas criou-se um parto mecanizado, onde as mulheres se sentem sozinhas, inseguras, com medo, associam o próprio hospital a doença, sendo que estão ali, para vivenciarem um momento maravilhoso, que é dar a luz ao seu filho.

À mercê desses procedimentos invasivos, a gestante fica com medo, dá início a um processo de tensão e enrijecimento, pois seus sentimentos não estão sendo respeitados e ela precisa retê-los, isso faz com que tencione a musculatura, e, com a musculatura tensa a dor aumenta, o desconforto é bem maior e mais intenso.

Proteger o ambiente do parto é importante para se ter um resultado positivo, contribui com liberdade de expressão ou pode tornar as coisas mais dificultosas. A privacidade, quietude, luzes controladas, o calor, as conversas entre a equipe e o respeito à família que ali se inicia, são atitudes simples, porém cruciais e imprescindíveis para este primeiro encontro.

A Doula cria um ambiente mais calmo e tranqüilo, reduzindo a tensão e a ansiedade da gestante. Ela vem auxiliar a mulher que deseja respeitar o ritmo natural e o simbolismo transformador do nascimento, mostrando a naturalidade com que gestação, parto e pós-parto pode ser vivenciada.

Para a OMS (Organização Mundial de Saúde) a doula é uma prestadora de serviços que recebeu um treinamento sobre parto e que está familiarizada com uma variedade de procedimentos de assistência.

O objetivo do trabalho da doula é estar presente com a gestante durante todo o período do parto buscando, através de técnicas, vivenciar o momento do parto de forma mais humana, sensível, concentrada na mãe e no bebê, dando chance ao pai de estar presente e de colaborar com sua companheira no momento mais importante de suas vidas!

Pesquisas têm mostrado que a atuação da doula no parto pode diminuir em: 50% as taxas de cesárea; 20% a duração do trabalho de parto; em 60% os pedidos de anestesia; 40% o uso de ocitocina (hormônio para ritmar as contrações, utilizado para induzir o parto); 40% o uso de fórceps.  (FADYNHA, 2003).

A Orientação Perinatal, preocupa-se em estudar e familiarizar-se com os aspectos que permeiam a gravidez, o nascimento e alguns dias após o parto, levando em consideração que a preparação para a maternagem e paternidade envolvem aspectos físicos, emocionais, nutricionais, ambientais, relacionais, profissionais, psicológicos e afetivos. Ela tem como objetivo orientar, informar e preparar a mulher para o processo de maternagem, possibilitar a esta, bem como ao casal grávido, escolhas conscientes e orientadas, tornando o momento do parto um evento único, vivenciado com a máxima consciência e respeito à vida bem vinda em família! Na verdade, possibilita uma compreensão e conscientização maior sobre alguns dos momentos que determinam o futuro de um ser humano como: a concepção, a gestação, o trabalho de parto, parto, a primeira hora após o nascimento, os primeiros dias, a amamentação, o desmame e o contato, entre outros momentos do ciclo gravídico.

Sabe-se que é desde a concepção que o embrião, depois feto, vem desenvolvendo capacidades sensoriais capazes de absorver, perceber e sentir os diferentes estímulos, sensações e sentimentos que sua mãe vivencia e experimenta no dia-a-dia.

A energia, o contato mãebebê, a vitalidade e a disposição com que uma mulher vive sua gestação podem determinar características e traços de caráter e personalidade no bebê, colaborando para a construção de adultos empreendedores seguros e capazes ou comprometendo-os transmitindo insegurança, indecisão e volubilidade.

A orientação e a informação são as partes essenciais na preparação para o parto e a maternidade, considerando que a gravidez e parto são etapas naturais do desenvolvimento humano e não eventos médicos, e que mulher tem o direito de parir naturalmente, livre das intervenções de rotina e protocolos institucionais, e conscientes de que a experiência do parto afeta profundamente a mulher e sua família atual e futura.

Para a Psicologia Corporal é como se nosso corpo, desde a infância, marcasse nossas vivências, como uma tatuagem, que é o momento em que dependemos exclusivamente dos cuidados de quem exerce a função materna e paterna. Quando exercida de forma precária, nas palavras de Volpi (2002, p. 129) “Esses acontecimentos, quando estressantes e traumáticos, muitas vezes deixam no corpo marcas profundas e irreversíveis”.

Prestar atendimento a um recém-nascido no momento do parto se restringe na maioria das vezes a observá-lo e dar a ele o crédito a que ele tem direito durante sua adaptação à condição de vida extra-uterina.

O contato pele a pele da mãe e bebê, o carinho e o tato, são fundamentais para o desenvolvimento, físico, químico e psicológico do bebê. Ele ouve e reconhece os batimentos do coração da mãe que lhe é familiar, ouve o “cantar” da mãe e do pai ao recebê-lo, percebendo a voz, olha nos olhos da mãe que está esperando receptiva para este momento. O médico aguarda o cordão umbilical parar de pulsar para o pai cortá-lo, se for o caso, todavia, possibilitando ao bebê adaptar-se naturalmente respirar com seu pulmão. O pediatra faz os exames com discrição e calma com o bebê no colo da mãe, ou ao lado quando isto não é possível, respeitando o vínculo, o elo de amor, que se inicia em seguida ao nascimento, o silêncio, o primeiro contato do bebê para com a sua mãe, e vice-versa.

O pai, quando a mãe necessita permanecer mais tempo na sala de cirurgia, fica todo o tempo com o bebê, durante os procedimentos de rotina, durante o banho e a primeira troca, levando-o para a mãe assim que terminarem essas pequenas intervenções, o mais rápido que for possível.

O bebê após seu nascimento permanece com a mãe senão com o pai, mas sempre tem companhia!

A relação mãe-filho-pai-família quando iniciada desde a gestação, se estabelece com maior intimidade, naturalidade e espontaneidade no momento do nascimento, possibilitando por meio da assistência e preparo vivenciar as emoções e as sensações que o parto inclui. Proporciona aos recentes pais, principalmente á mãe estar mais atenta e concentrada aos desejos e ás solicitações do seu bebê, favorecendo um atendimento e uma resposta á expectativa da criança mais rápida, mais centrada, sensível e amorosa.

A formação psico-emocional começa na gestação e depende, exclusivamente da gestante e dos seus cuidadores no início da vida. O despreparo desses atores tende a comprometer ou dificultar o desenvolvimento natural e espontâneo da criança.

A primeira casa do indivíduo é o útero materno que o abriga. Os acontecimentos durante a concepção, na vida intra-uterina, na chegada ao mundo, na amamentação, no modo de ser acalentado ao colo, do primeiro ano de vida e da infância irão determinar a formação do caráter do indivíduo e a sua dinâmica de agir no mundo.

Assim como é para a mulher, um turbilhão de sensações e sentimentos, para o pai gestante, sua participação ativa na gestação e nascimento é uma aventura inesquecível e transformadora, principalmente quando o casal enfrenta o parto com confiança, com consciência dos sentimentos e atitudes, conseguindo vivenciar um clima de compartilhamento honesto.

Nossos bebês, crianças e jovens merecem receber mais informações para que sejam capazes de construir uma sociedade mais saudável, autêntica, fraterna e solidária.

“ Não imponha às crianças os males que lhe foram impostos. Não os transmitam, consciente ou inconsciente, à próxima geração. Ao contrário, você pode quebrar a corrente de mil anos dessa herança, mesmo que esteja enrolada nela e sofra por isso. Eis a grande esperança” (Eva Reich, 1998, p.28)

Referências

FADYNHA. A Doula no parto: o papel da acompanhante de parto especialmente treinadapara oferecer apoio contínuo físico e emocional á parturiente. São Paulo: Ground, 2003.

HEINOWITZ, Jack. Pais grávidos: a experiência da gravidez do ponto de vista dos maridos/Jack Heinowitz; tradução Paulo Salles. São Paulo: Cultrix, 2005.

NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995.

WILHEIM, Joanna. Oque é psicologia pré-natal. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

WINNICOTT, Donald W., 1986-1971, O bebê e suas mães. 3ª ed. – São Paulo: Martins

Fontes, 2006

VOLPI, J. H.; VOLPI. S. M. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional

segundo a Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2002.

VOLPI, José Henrique. Particularidades sobre o temperamento, a personalidade e o caráter, do ponto da psicologia corporal. Artigo do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2004.

REICH, Eva. Energia vital pela bioenergética suave. São Paulo: Summus, 1998

 

 
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