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Em Março de 2009, várias personalidades da sociedade portuguesa, reuniram-se em Viana do Castelo, no norte de Portugal, para criar um movimento que tivesse por base a definição de princípios de boas práticas na área do parto.

Foram definidos 10 princípios:

1. Todas as grávidas e acompanhantes têm o direito de ser tratadas com respeito e dignidade, independentemente das suas convicções e opções.

2. Promover um ambiente carinhoso, em que é permitido à grávida expressar a sua forma de ser e de vivenciar esse momento único e tão importante da sua vida, bem como ver respeitada a sua privacidade e conforto, são aspectos essenciais dos cuidados intraparto.

3. O trabalho de parto de início espontâneo que culmina num parto eutócico (parto vaginal sem intervenções) e decorre entre as 37 e as 42 semanas, é atualmente a forma mais segura de nascimento.

4. O recurso ao parto induzido (provocado artificialmente) e à cesariana sem qualquer motivo de saúde, mas apenas por conveniência dos envolvidos, está associado a maiores riscos1,2 e é considerado pela comunidade científica internacional como uma prática injustificada2.

5. O parto é um processo natural que, na maioria dos casos, apenas necessita da vigilância e apoio por profissionais de saúde. Nos casos de baixo risco estes deverão, preferencialmente, ser prestados por um enfermeiro especialista de saúde materna e obstétrica/parteira3.

6. Existem casos, mesmo considerados de baixo risco, em que são necessárias intervenções de saúde para evitar complicações graves decorrentes do parto4. É fundamental assegurar em todos os casos o acesso a tratamentos de urgência qualificados e baseados na evidência científica.

7. A evidência científica atual não apoia como intervenções de rotina nas parturientes de baixo risco: a tricotomia perineal5 (corte dos pêlos púbicos); a utilização sistemática de clisteres6; a utilização sistemática de soros2 , ocitocina2 e a amniotomia (rotura artificial da bolsa de águas) no trabalho de parto2; a restrição da alimentação líquida7; a restrição dos movimentos2; a restrição da posição do parto8; a episiotomia sistemática (corte dos tecidos da vagina na altura do nascimento em todas as parturientes)9; a aspiração sistemática das vias respiratórias no recém-nascido que nasce com boa vitalidade10.

8. A evidência científica atual aconselha como opções benéficas durante o parto nas parturientes de baixo risco a arquitetura não-hospitalar das salas de parto11 e o apoio contínuo durante o trabalho de parto12. Todas as grávidas devem poder contar com o recurso a métodos de alívio da dor durante o trabalho de parto, assegurando-se a disponibilidade dos mesmos assim que a mãe os solicite e o profissional de saúde entenda adequado. O leque de opções neste âmbito deve compreender os métodos farmacológicos (incluíndo a analgesia epidural ou raquidiana) e os não farmacológicos (incluíndo o banho de imersão/chuveiro durante a fase de dilatação13, ou a simples deambulação), privilegiando-se estes últimos como intervenções de primeira linha nas grávidas de baixo risco.

9. As grávidas têm direito a receber informações completas, corretas e não tendenciosas, baseadas na melhor evidência científica disponível sobre riscos, benefícios e alternativas disponíveis para os cuidados de saúde, de forma a tomarem uma decisão informada e, se entenderem, mudarem de opinião relativamente às suas escolhas. É necessário fomentar a avaliação e divulgação dos principais indicadores estatísticos associados ao parto por cada instituição de saúde.

10. O parto é um evento familiar, onde a possibilidade da grávida poder escolher a presença permanente de elementos próximos e de poder contatar precocemente com a restante família são aspectos essenciais para a vivência do momento.


REFERÊNCIAS:
1. Liu S, Liston RM, Joseph KS, Heaman M, Sauve R, Kramer MS; Maternal Health Study Group of the
Canadian Perinatal Surveillance System. Maternal mortality and severe morbidity associated with lowrisk
planned cesarean delivery versus planned vaginal delivery at term. CMAJ. 2007 Feb 13;176(4):455-
60.
2. Goer H, Leslie MS, Romano A Does Not Routinely Employ Practices, Procedures Unsupported by
Scientific Evidence. J Perinat Educ 2007; 16(Suppl 1): 32S–64S.
3. Hatem M, Sandall J, Devane D, Soltani H, Gates S. Midwife-led versus other models of care for
childbearing women. Cochrane Database Syst Rev. 2008 Oct 8;(4):CD004667
4. Saving Mother’s lives. 7th Report of the Confidential Enquiries into Maternal Deaths in the United
Kingdom 2003-2005. CEMAH Publications, London;2008.
5. Basevi V, Lavender T. Routine perineal shaving on admission in labour.
Cochrane Database Syst Rev.
2001;(1):CD001236.
6. Cuervo LG, Rodríguez MN, Delgado MB.
Enemas during labor. Cochrane Database Syst Rev.
2007;(4):CD000330.
7. American Society of Anesthesiologists Task Force on Obstetric Anesthesia. Practice Guidelines for
Obstetric Anesthesia. Anesthesiology 2007; 106:843–63 C.
8. Gupta JK, Hofmeyr GJ. Position for women during second stage of labour. Cochrane Database Syst
Rev. 2004;(1):CD002006.
9. Carroli G, Belizan J. Episiotomy for vaginal birth. Cochrane Database Syst Rev. 2000;(2):CD000081
10. American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency
Cardiovascular Care of Pediatric and Neonatal Patients: Pediatric Basic Life Support. Pediatrics
2006;117(5):e989-e1004 (doi:10.1542/peds.2006-0219).
11. Hodnett ED, Downe S, Edwards N, Walsh D. Home-like versus conventional institutional settings for
birth. Cochrane Database Syst Rev. 2005 Jan 25;(1):CD000012
12. Hodnett ED, Gates S, Hofmeyr GJ, Sakala C.. Continuous support for women during childbirth.
Cochrane Database Syst Rev. 2007 Jul 18;(3):CD003766.
13. Cluett ER, Nikodem VC, McCandlish RE, Burns EE. Immersion in water in pregnancy, labour and
birth.
Cochrane Database Syst Rev. 2004;(2):CD000111.

 

 
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